segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Todos estes que aí estão
Atravancando o meu caminho,
Eles passarão.
Eu passarinho!




Mario Quintana

As velas do Mucuripe
Vão sair para pescar
Vão levar as minhas mágoas
Pras águas fundas do mar
Hoje à noite namorar
Sem ter medo da saudade
Sem vontade de casar
Calça nova de riscado
Paletó de linho branco
Que até o mês passado
Lá no campo inda era flor
Sob o meu chapéu quebrado
Um sorriso ingênuo e franco
De um rapaz moço encantado
Com vinte anos de amor
Aquela estrela é bela
Vida vento vela leva-me daqui
Aquela estrela é dela
Vida vento vela leva-me daqui.
[Belchior]

sábado, 29 de agosto de 2009



Deixo que o inevitável dance, ao meu redor,
a dança das espadas de todos os momentos.e deveria rir ,
se me retasse o riso,das tormentas que poupam as furnas da minha alma,
dos desastres que erraram o alvo do meu corpo…




Guimarães Rosa

Da vez primeira em que me assassinaram,
Perdi um jeito de sorrir que eu tinha.
Depois, a cada vez que me mataram,Foram levando qualquer coisa minha.Hoje, dos meu cadáveres eu sou
O mais desnudo, o que não tem mais nada.Arde um toco de Vela amarelada,Como único bem que me ficou.
Vinde! Corvos, chacais, ladrões de estrada!Pois dessa mão avaramente adunca
Não haverão de arracar a luz sagrada!Aves da noite! Asas do horror! Voejai!
Que a luz trêmula e triste como um ai,
A luz de um morto não se apaga nunca!
Mario Quintana
[Essa nenem sou eu] :D

quinta-feira, 27 de agosto de 2009



Amigos, não consultem os relógios
quando um dia eu me for de vossas vida
sem seus fúteis problemas tão perdidas que até parecem mais uns necrológios...
Porque o tempo é uma invenção da morte:não o conhece a vida - a verdadeira -em que basta um momento de poesiapara nos dar a eternidade inteira.Inteira, sim, porque essa vida eternasomente por si mesma é dividida:não cabe, a cada qual, uma porção.
E os Anjos entreolham-se espantados quando alguém - ao voltar a si da vida -acaso lhes indaga que horas são...



Mario Quintana - A Cor do Invisível

Viver é um descuido prosseguido.
Mas quem é que sabe como?
Viver...
o senhor já sabe: viver é etcétera...




Guimarães Rosa

quarta-feira, 26 de agosto de 2009



Quando eu morrer, que me enterrem na beira do chapadão, contente com minha terra, cansado de tanta guerra, crescido de coração.




Guimarães Rosa