quinta-feira, 13 de agosto de 2009



"... uma das coisas que aprendi é que se deve viver apesar de. Apesar de, se deve comer. Apesar de, se deve amar. Apesar de, se deve morrer. Inclusive muitas vezes é o próprio apesar de que nos empurra para a frente. Foi o apesar de que me deu uma angústia que insatisfeita foi a criadora de minha própria vida. Foi apesar de que parei na rua e fiquei olhando para você enquanto você esperava um táxi. E desde logo desejando você, esse teu corpo que nem sequer é bonito, mas é o corpo que eu quero. Mas quero inteira, com a alma também. Por isso, não faz mal que você não venha, espararei quanto tempo for preciso."

Clarice Lisperctor.



Aqui eu te amo.Nos escuros pinheiros se desenlaça o vento.Fosforece a lua sobre as águas errantes.Andam dias iguais a perseguir-se.
Descinge-se a névoa em dançantes figuras. Uma gaivota de prata se desprende do ocaso.As vezes uma vela. Altas, altas, estrelas.
Ou a cruz negra de um barco.Só.As vezes amanheço, e minha alma está úmida.Soa, ressoa o mar distante.Isto é um porto.Aqui eu te amo.
Aqui eu te amo e em vão te oculta o horizonte.Estou a amar-te ainda entre estas frias coisas.As vezes vão meus beijos nesses barcos solenes,que correm pelo mar rumo a onde não chegam.
Já me creio esquecido como estas velha âncoras.São mais tristes os portos ao atracar da tarde.Cansa-se minha vida inutilmente faminta..Eu amo o que não tenho. E tu estás tão distante.
Meu tédio mede forças com os lentos crepúsculos.Mas a noite enche e começa a cantar-me.A lua faz girar sua arruela de sonho.
Olham-me com teus olhos as estrelas maiores.E como eu te amo, os pinheiros no vento, querem cantar o teu nome, com suas folhas de cobre.


Pablo Neruda

terça-feira, 11 de agosto de 2009




Quero saber se você vem comigoa não andar e não falar,quero saber se ao fim alcançaremosa incomunicação; por fimir com alguém a ver o ar puro,a luz listrada do mar de cada diaou um objeto terrestree não ter nada que trocarpor fim, não introduzir mercadoriascomo o faziam os colonizadorestrocando baralhinhos por silêncio.Pago eu aqui por teu silêncio.
De acordo, eu te dou o meu como te dou o meu com uma condição: não nos compreender



Pablo Neruda (Últimos Poemas)


"Eu tenho idéias e razões,
Conheço a cor dos argumentos
E nunca chego aos corações."




Fernando Pessoa, 1932

segunda-feira, 10 de agosto de 2009


Hoje deitei-me junto a uma jovem pura como se na margem de um oceano branco,como se no centro de uma ardente estrelade lento espaço.
Do seu olhar largamente verdea luz caía como uma água seca,em transparentes e profundos círculosde fresca força.
Seu peito como um fogo de duas chamasardía em duas regiões levantado,e num duplo rio chegava a seus pés,grandes e claros.
Um clima de ouro madrugava apenasas diurnas longitudes do seu corpoenchendo-o de frutas extendidase oculto fogo..




[Pablo Neruda]



...que não sou mulher de arrependimentos, de olhar pra trás, essas coisas. A gente tem que mirar no alvo e atirar, pronto, foi. A flecha não volta. Se acertamos ou erramos, não tem volta. Foi assim que levei a vida sempre...'


[C.F.A]

quinta-feira, 6 de agosto de 2009



A lua (dizem os ingleses),
É feita de quijo verde.
Por mais que pense mil
vezesSempre uma idéia se perde.
E era essa, era, era essa,
Que haveria de salvar
Minha alma da dor da pressa
De... não sei se é desejar.
Sim, todos os meus desejos
São de estar sentir pensando...
A Lua (dizem os ingleses)
É azul de quando em quando.




Fernando Pessoa, 14-11-1931