sábado, 3 de março de 2012



Responder a perguntas não respondo.
Perguntas impossíveis não pergunto.
Só do que sei de mim aos outros conto:
de mim, atravessada pelo mundo.

Toda a minha experiência, o meu estudo,
sou eu mesma que, em solidão paciente,
recolho do que em mim observo e escuto
muda lição, que ninguém mais entende.

O que sou vale mais do que o meu canto.
Apenas em linguagem vou dizendo
caminhos invisíveis por onde ando.

Tudo é secreto e de remoto exemplo.
Todos ouvimos, longe, o apelo do Anjo.
E todos somos pura flor de vento.

Cecília Meireles, Soneto Antigo.



Perdoa-me, folha seca,
não posso cuidar de ti.
Vim para amar neste mundo,
e até do amor me perdi.

De que serviu tecer flores
pelas areias do chão,
se havia gente dormindo
sobre o própro coração?

E não pude levantá-la!
Choro pelo que não fiz.
E pela minha fraqueza
é que sou triste e infeliz.
Perdoa-me, folha seca!
Meus olhos sem força estão
velando e rogando áqueles
que não se levantarão...

Tu és a folha de outono
voante pelo jardim.
Deixo-te a minha saudade
- a melhor parte de mim.
Certa de que tudo é vão.
Que tudo é menos que o vento,
menos que as folhas do chão...

Cecília Meireles


Ao som de Modinha - Ton Jobim e Vinicius de Moraes



Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.


Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.


Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
— não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.


Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
— mais nada.

Cecília Meireles em Motivos


E eis que em breve nos separaremos

E a verdade espantada é que eu sempre estive só de ti e não sabia

Eu agora sei, eu sou só

Eu e minha liberdade que não sei usar

Mas, eu assumo a minha solidão

Sou só, e tenho que viver uma certa glória íntima e silenciosa

Guardo teu nome em segredo

Preciso de segredos para viver

E eis que depois de uma tarde de quem sou eu

E de acordar a uma hora da madrugada em desespero

Eis que as três horas da madrugada, acordei e me encontrei

Fui ao encontro de mim, calma, alegre, plenitude sem fulminação

Simplesmente eu sou eu, e você é você

É lindo, é vasto, vai durar

Eu não sei muito bem o que vou fazer em seguida

Mas, por enquanto, olha pra mim e me ama

Não, tu olhas pra ti e te amas

É o que está certo

Eu sou antes, eu sou quase, eu sou nunca

E tudo isso ganhei ao deixar de te amar

Escuta! Eu te deixo ser… Deixa-me ser!

Clarice Lispector


"Não, eu não queria ver nada disso. E não, eu não queria pensar em nada disso, mas infelizmente com o pensamento é diferente, a liberdade que ele tem tolhe a nossa, o pensamento faz o que quer."

[Adriana Lisboa in: Azul-corvo]



"Aliás, se estava um pouco tranquilizado, não me sentia feliz. A perda de toda bússola, de toda direção, que caracteriza a espera, ainda persiste, após a chegada do ente esperado, e, substituindo em nós a calma em que imaginávamos com tanto prazer a sua chegada, impede-nos de sentir o mínimo prazer que seja. Albertine estava ali, meus nervos, destroçados, continuando a sua agitação, esperavam-na ainda. (...) Ficaríamos para sempre curados do romantismo se, para pensar naquela a quem amamos, procurássemos ser aquele que seremos quando não mais a amamos."

Proust, Tradução de Carlos Drummond de Andrade.



"Pensei em dizer alguma coisa, em retê-la ainda, mas vi que seria completamente inútil: ela não me vira, não me reconhecera senão pelo espaço de um minuto, e já havia se distanciado novamente, e mergulhado nessa distância que eu não conhecia, e que brilhava em seus olhos como a lembrança de um mundo submerso."

[Lúcio Cardoso in: Crônica da casa assassinada]



"Talvez me faltem palavras, jamais sentimentos.”