terça-feira, 9 de março de 2010






(...) gostava das cores de suas roupas; do jeito delas andarem; da crueldade de certas caras. Vez por outra, via um rosto de beleza quase pura, total e completamente feminina. Elas levavam vantagem sobre a gente: planejavam melhor as coisas, eram mais organizadas. Enquanto os homens viam futebol, tomavam cerveja ou jogavam boliche, elas, as mulheres, pensavam na gente, concentradas, estudiosas, decididas: a nos aceitar, a nos descartar, a nos trocar, a nos matar ou simplesmente a nos abandonar. No fim das contas, pouco importava; seja lá o que decidissem, a gente acabava mesmo na solidão e na loucura.



[Charles Bukowski]



"Um nojo, vezenquando me dá um
asco — nojo é culpa, nojo é moral —você se sente sórdido, baby? — eu tenho
medo, não quero correr riscos — mas agora só existe um jeito e esse jeito é
correr o risco — não é mais possível — vamos parar por aqui — quero
acordar cedo, fazer cooper no parque, parar de beber, parar de fumar, parar de
sentir — estou muito cansado — não faz assim, não diz assim — é muito
pouco — não vai dar certo — anormal, eu tenho medo — medo é culpa,
medo é moral — não vê que é isso que eles querem que você sinta? medo,
culpa, vergonha — eu aceito, eu me contento com pouco — eu não aceito
nada nem me contento com pouco — eu quero muito, eu quero mais, eu
quero tudo."



[Caio F. Abreu]

segunda-feira, 8 de março de 2010






Voar com a asa ferida?
Abram alas quando eu falo.
Que mais foi que fiz na vida?
Fiz, pequeno, quando o tempo
estava todo ao meu lado
e o que se chama passado,
passatempo, pesadelo,
só me existia nos livros.
Fiz, depois, dono de mim,
quando tive que escolher
entre um abismo, o começo,
e essa história sem fim.
Asa ferida, asa ferida,
meu espaço, meu herói.
A asa arde. Voar, isso não doi


[Leminski]

sexta-feira, 5 de março de 2010




o amor, esse sufoco,
agora há pouco era muito,
agora, apenas um sopro

ah, troço de louco,
corações trocando rosas,
e socos.




[Leminski]

quarta-feira, 3 de março de 2010






A lua foi ao cinema,
passava um filme engraçado,
a história de uma estrela
que não tinha namorado.

Não tinha porque era apenas
uma estrela bem pequena,
dessas que, quando apagam,
ninguém vai dizer, que pena!

Era uma estrela sozinha,
ninguém olhava pra ela,
e toda a luz que ela tinha
cabia numa janela.

A lua ficou tão triste
com aquela história de amor
que até hoje a lua insiste:
— Amanheça, por favor!




[Leminski]

terça-feira, 2 de março de 2010





Poema que é bom
acaba zero a zero.
Acaba com.
Não como eu quero.
Começa sem.
Com, digamos, certo verso,
veneno de letra,
bolero, Ou menos.
Tira daqui, bota dali,
um lugar, não caminho.
Prossegue de si.
Seguro morreu de velho,
e sozinho.




[Leminski]

segunda-feira, 1 de março de 2010





'..porque o verão está no fim, porque na verdade não nos conhecemos, porque nada do que acontecia aqui, rituais, levezas mentirosas, até que minha mentira nos ameaçasse aconteceria realmente se minha mentira não fosse verdade e nada tivéssemos a defender além da verdade inteira de um próximo momento mais verdadeiro que aquele. Mesmo medonho. Baixei a cabeça quando sem pretender fui forçado a dizer assim, cínico talvez, mas absolutamente passível de perdão, embora não necessitasse dele, porque de alguma forma havia feito exatamente o que me fora destinado fazer, ainda que para isso um eu desconhecido precisasse tomar o comando de mim e disse então, olhando nos olhos de um por um dos outros oito: foi por Amor que menti.'



[Caio F. Abreu]