quarta-feira, 17 de outubro de 2012

"Porque entre o sim e o não é só um sopro, entre o bom e o mau apenas um pensamento, entre a vida e a morte só um leve sacudir de panos — e a poeira do tempo, com todo o tempo que eu perdi, tudo recobre, tudo apaga, tudo torna simples e tão indiferente." [Lya Luft]
"A vida não oferece opção: ou você segue, ou você segue." [Martha Medeiros]
"Segundo a profecia Maia, o mundo acabará no dia 21 de Dezembro. A pergunta é: Para você, quantas vezes o mundo acabou? Ainda que um copo d’água com açúcar ou um bom porre o tenha feito perceber que era pura frescura, aposto que pelo menos uma vez na vida você já teve essa sensação, a terrível sensação de fim do mundo, um acidente ou qualquer baque doloroso o suficiente para tirá-lo do eixo. Quem nunca?A perda do emprego, do amor ou do cartão do banco; a morte de alguém importante A vida é um constante abrir e fechar de ciclos e exagerando um pouquinho, dá para dizer que ao longo da estrada a gente vê o mundo acabar (e recomeçar) algumas vezes. A gente morre e renasce a cada queda – eis a (des)graça de existir. Esqueça aquela história de cultivar o jardim para contar com as borboletas. O segredo, o grande segredo, é aprender a ressurgir cada vez que seu mundo acabar." [Flávia Queiroz]

terça-feira, 9 de outubro de 2012

"Nas noites claras de luar, costumo ir das águas ouvir o vão lamento; e, após o ouvi-las, cauteloso e atento que o rio também sofre, eis que presumo. Nesse que leva tortuoso rumo, que fado triste e por demais cruento: Vai deslizando agora doce e lento e agora desce encachoeirado e a prumo. O dorso aqui lhe encrespa leve brisa, ali o deslizar calhau lhe veda; além, de novo, sem fragor, desliza... És como o rio, coração tristonho: Se ele vive a chorar de queda em queda, vives tu a gemer de sonho em sonho." (Belmiro Braga)


"Morre o pobre e nem caixão Vai no esquife, que desgraça! Para o cemitério passa Sem padre nem sacristão!... Quem fará esta excepção?... Se é Deus que rege os destinos Dos grandes e pequeninos, E todos são filhos seus... P'ra desmentir esse Deus, Morre o rico, dobram sinos. Diz, padre, que leis são essas Que servem p'ra ti somente... Tu confessas toda a gente E à gente não te confessas... Diz por que tanto te interessas Nesses segredos que encobres, Porque é que não te descobres Nos jornais ou num sermão, Dizendo porque razão Morre o pobre e não há dobres? Só os ricos são gerados, Dessa Virgem, desse Deus?... Só eles são filhos seus E os pobres são enteados?... Padre, tu só tens cuidados Com os ricos, teus compadres, Que deixam ir as comadres Esmolinhas oferecer A Deus, sem ninguém saber... Que Deus é esse dos Padres?... Qual é o Deus que autoriza, Ao rico, mil esplendores, E aos pobres trabalhadores, Nem pão, nem lar, nem camisa?... Manda, p'ra quem não precisa, O oiro, a prata e os cobres, Palácios, honras de nobres!... E eu, triste farrapo humano, Julgo esse Deus um tirano, Que não faz caso dos pobres."

(Glossas, Bernardo de Passos)











"De repente acordo e Vejo bem perto De mim, colado quase ao meu, desnudo, Também, cansado, inerte no veludo, O corpo dela, sem censura, aberto O coração, de sentimento incerto, Às vezes, mesmo, indiferente a tudo. De tanto vê-la assim me desiludo E me entristeço sempre que desperto. Sem esperança de acordar com ela, Eu fico preso ao meu amor constante E paro, e penso e sinto, num instante, Quando ela dorme, assim, imóvel, bela: ...Eu dos seus sonhos estou tão distante, Que nem parece que estou junto dela."





(Abdias Sá, João Pessoa, 1981)

"

Acordei! A casa estava quente como o meu corpo. No silêncio do quarto a percepçåo De que o amanhå havia acabado de despertar. Entre olhos sonolentos, O corpo arrepiado, Transformou a superfície lisa em leves ondas. Todos os músculos foram esticados. Cada fibra estendida ao extremo. A boca abriu-se... Na frente o espelho revelava a silhueta, Que dengosa percebeu suas formas delicadas Nas curvas acentuadas. Sorri... O tempo nublado percorreu e penetrou no aposento. Intrometido! Transformou a quietude com o suave zumbir dos ventos. Trocou a cor pálida das paredes. Deu vontade de cobrir, ficar encolhida, quieta. Era hora da partida que nåo pode deixar para amanhå o adeus de todos os dias. Deixei que os minutos passassem, nåo fiz queståo de segurá-los. Que o tempo nublado chegasse, penetrasse todos os meus poros. Que as horas permitissem aos minutos serem donos do tempo. No peito arfante os dois elementos se misturaram, nublando Meus pensamentos. Fizeram do corpo moradia."

 

(Tereza Cristina Fraga)